‘Margaridas’ viajam até um ano para participar de Marcha em Brasília
Por Redação, com Bárbara Lopes - Carta Maior - de Brasília
Os seis quilômetros que separam o Parque da cidade de Brasília, área central da Marcha dasMargaridas, e o Congresso Nacional não serão os mais difíceis que milhares de mulheres presentes à manifestação precisaram percorrer nesta quarta-feira. Um passeio, na realidade, para quem esteve na estrada por mais de um ano, participando de etapas preparatórias à jornada anual de lutas das camponesas brasileiras.
– Foi uma longa caminhada até o dia de hoje [terça-feira]. A gente conseguiu nosso objetivo, de trazer a caravana – diz Mercedes Panassol Demore, coordenadora de mulheres da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado do Paraná (Fetaep).
Para conseguir viabilizar à ida à manifestação em longas viagens de ônibus e sobreviver durante um tempo longe de casa, mulheres de diversos estados tiveram de se virar e apelar à criatividade, para arrumar dinheiro
– Uma mulher me disse: ‘eu tinha uma galinha e uma pata. Rifei a pata e consegui R$ 70′ – conta Conceição Dantas, do Centro Feminista 8 de Março do Rio Grande do Norte, organização que faz parte da coordenação da Marcha Mundial de Mulheres.
– Para nós, é até dificil explicar como é importante esse processo. Porque é dar responsabilidade às mulheres de organizarem a sua vinda. Elas têm que conquistar isso. Se o seu grupo não consegue mobilizar e conscientizar as mulheres e buscar os recursos, elas não conseguem vir. Assim, transformam dificuldades pessoais em desafios coletivos – explica a potiguar.
Para construir essa mobilização, atividades regionais de formação, explicando a história e os objetivos da Marcha das Margaridas, foram realizadas nos 27 Estados. Nem todas as mulheres envolvidas na preparação puderam ir à Capital Federal, no entanto. As 70 mil presentes, na estimativa da organização, são apenas a parte visível de um processo que tem raízes bem mais profundas.
– Nós começamos as discussões nos grupos de base, espalhados em pelo menos 20 municípios do Rio Grande do Norte, no dia 8 de março. Começamos a discutir quem viria para Brasília receber a resposta da presidenta [Dilma Rousseff] às reivindicações. E muitas manifestaram esse desejo – diz Conceição.
Dilma vai participar do encerramento da Marcha, no mesmo Parque da Cidade aonde as margaridas estarão de volta do “passeio” de seis quilômetros até o Congresso. Lá, Dilma e seus ministros devem anunciar o que, dentre as reivindicações do movimento, será possível atender.
Margarida, sindicalista
A maior mobilização do campesinato feminino brasileiro é relativamente recente. A primeira foi feita há onze anos. O movimento inspirou-se num fato trágico, mas ainda comum no Brasil: o assassinato de uma sindicalista, Margarida Maria Alves, em 1983, numa região conhecida como Brejo da Paraíba, no Estado homônimo.
– Começamos com um grupinho de esposas dos líderes das oposições sindicais rurais, em 1981, e a coisa logo pegou fogo e se espalhou – lembra Maria Valéria Rezende, freira católica que assessorava movimentos populares na época.
As mulheres começaram discutindo assuntos gerais, como acesso à terra. Mas, aos poucos, questões de gênero foram surgindo. Foi nesse grupo que ascendeu como liderança a camponesa Margarida Maria Alves, que se tornou o apelido das manifestantes.
Hoje, as trabalhadoras defendem que é impossível discutir a situação no campo sem passar pela questão das mulheres. As críticas ao modelo agrário feitas pelo movimento rural – a defesa da agroecologia e da agricultura camponesa, por exemplo – têm uma relação profunda com o trabalho normalmente atribuído às mulheres no campo.
Os quintais, com plantações voltadas para consumo próprio ou para comercialização em pequena escala, eram uma forma de invisibilizar o trabalho feminino. Atualmente, é uma bandeira de diversos setores dos trabalhadores rurais.
– Precisamos de um modelo de desenvolvimento agrário que coloque a produção das mulheres e a reprodução como centro. Tanto faz elas estarem na casa, cuidando dos trabalhos domésticos, ou na roça, a divisão sexual do trabalho acontece nesses dois espaços e esses dois espaços sao desvalorizados quando é trabalho de mulher – defende Conceição Dantas.
Apesar dos avanços, em relação aos benefícios da Previdência Social e titulação conjunta de lotes da reforma agrária, a pauta apresentada pelas margaridas ainda é extensa, mostrando que ainda falta muito para diminuir as desigualdades de gênero no campo.
– Para nós, são centrais as questões da violência contra a mulher, da documentação das mulheres trabalhadoras rurais, o Pronaf Mulher (linha do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar voltada às mulheres) que não sai, está sempre bloqueado e a mulher nunca consegue fazer o financiamento – critica Mercedes. Por isso, as mulheres seguem em marcha.



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