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Aimez-vous Sibelius? – Parte II

domingo, 11 de setembro de 2011


MÚSICA CLÁSSICA

Aimez-vous Sibelius? – Parte II

Compositor brasileiro Mario Ficarelli, autor, entre outras, de quatro Sinfonias, publicou uma tese de doutorado sobre as Sinfonias de Sibelius e fala ao Opinião e Notícia sobre os mistérios de sua música e os possíveis motivos da indiferença que encontra no Brasil. Por Clóvis Marques

Começamos aqui na semana passada uma avaliação do pouco apreço do público brasileiro pela música de Sibelius — que a mim apaixona. Entrevisto agora o compositor brasileiro Mario Ficarelli, que defendeu no Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), em 1995, a tese de doutoramento “As Sete Sinfonias de Jean Sibelius: Um estudo sobre as formas e a fraseologia”.
Nascido em São Paulo em 1935, autor de vasta obra que inclui quatro Sinfonias, além de música de câmara, vocal, coral e cênica, Ficarelli está ligado desde o início dos anos 80 à ECA-USP, onde foi professor Livre Docente em Composição, atuando na Direção do Departamento de Música de 1997 a 2005. Membro da Academia Brasileira de Música, Ficarelli estudou piano com Maria de Freitas Moraes e Alice Philips e composição com Olivier Toni. Algumas de suas obras – como a 2ª Sinfonia, Mhatuhab, encomendada e estreada pela Orquestra Tonhalle de Zurique, de poderosa força dramática – podem ser ouvidas em seu site.
Encontro em sua tese, esmiuçando e comentando cada sinfonia sucessivamente, uma citação que talvez me tenha ajudado mais que tudo a entender um pouco esse desapreço por Sibelius num país como o nosso. Ficarelli reproduz o seguinte comentário de Jacques Stehman em sua História da música europeia, publicada em 1970 pela Difusão Européia do Livro: “As sete Sinfonias [de Sibelius] são praticamente desconhecidas nos países latinos, mas familiares aos anglo-saxãos e aos alemães, pois correspondem ao gosto desses povos pelo mistério e o irracional. O público latino prefere uma dialética, uma forma, um dinamismo; quando a música plana, contempla ou simplesmente impõe uma atmosfera, corre o risco de provocar impaciência.”
Outras características da música de Sibelius são estudadas por Ficarelli. Pinço aqui alguns highlights de sua tese, na tentativa de apreender o que e como nos diz a música de Sibelius: o caráter intuitivo da criação, acompanhado de uma consciência plena do processo composicional (“Eu sou mais um médium do que um homem do tipo cerebral”, declarou Sibelius certa vez); a antecipação temática de uma seção na que lhe antecede, processo “integrante do pensamento musical sibeliano”; a tradução das idéias em motivos (grupo de sons de mais curta extensão que os temas); o uso dos metais ora em forma coral, ora em extensos pedais, ora em solos de grande destaque; a capacidade de organização do material de maneira a surpreender e prender a atenção; a afinidade com a antiguidade clássica apontada por outro estudioso de sua obra, Cecil Gray, pelos parâmetros de “sublime grandeza e notável dignidade”, de “um êxtase e uma serenidade verdadeiramente olímpicos”; o avanço pelas fronteiras da tonalidade sem abandonar de todo o tonalismo: “A renovação da linguagem musical em Sibelius não permite teorização, como se pode fazer por exemplo em Schönberg, contudo a concisão, a síntese e o refinamento da textura somados a um incessante metamorfismo alinha-a em seu tempo.”

Entrevista com Mario Ficarelli

Clóvis Marques: Seria possível resumir o que faz a beleza da música de Sibelius e por que ela o atraiu especialmente? (Por exemplo: no meu caso, eu diria que a música de Sibelius me transporta a paragens que me falam de uma realidade espiritual do Homem, de esperança e beleza em comunhão com o cosmos, mesmo em meio às dificuldades da condição humana…)
Mario Ficarelli: Dizer da beleza da música de Sibelius é muito difícil usando palavras. Só com uma escuta muito atenta de sua música poderá uma pessoa sensível, inteligente e de imaginação captar todo o mundo sonoro desse mestre. Percebi que me vali de uma declaração de Berlioz, onde diz: “Componho música para pessoas inteligentes e de imaginação.” Sibelius, assim como Berlioz e muitos outros que são extremamente honestos na exposição de seus pensamentos musicais, é capaz de gravar no papel toda a concepção espiritual que possui e transmiti-la aos demais em qualquer tempo, seja em sua época ou hoje, neste mundo conturbado em que vivemos. Equivocadamente, muitos músicos, musicólogos e mesmo críticos e articulistas ainda escrevem e dizem ser Sibelius um compositor nacionalista. Sempre que posso recomendo-lhes que leiam o Kalevala (lê-se “Calévala”, pois no finlandês todas as palavras são proparoxítonas), e acabarão concordando comigo que Sibelius é tão nacionalista na música quanto Wagner ao compor o Anel. Cada um, ao seu modo, inspira-se na mitologia: Wagner na germânica e Sibelius na finlandesa. É sabido que às crianças finlandesas é dado conhecer desde tenra infância as narrativas do Kalevala. Sibelius inspira-se principalmente nessas narrativas para compor grande parte de sua música, portanto, segundo conhecedores, não utiliza ritmos, melodias folclóricas ou populares características de seu país.
Caro Clóvis, na sua observação colocada entre parênteses (…a música de Sibelius me transporta a paragens que me falam de uma realidade espiritual do Homem, de esperança e beleza em comunhão com o cosmos, mesmo em meio a todas as dificuldades da condição humana…) encontra-se indiretamente um argumento que o próprio Sibelius usava para justificar não compor mais nenhuma música depois de 1927: o de que a música tomou caminhos com os quais ele não se identificava.
Sobre o que mais me atraiu na música de Sibelius, foi principalmente a capacidade de tratar com profundidade o conteúdo, com originalidade de estilo a orquestração e com objetividade a construção da sua música. A propósito, quando conheci algumas de suas obras, na década de 60, percebi logo que era uma fonte inesgotável para meus estudos de composição, tanto quanto o fora Beethoven. Vinte anos depois, obtive a muito custo as partituras de diversas de suas obras e comecei a “desbravá-las”. Na medida em que as estudava, mais percebia seu tratamento da forma, do inter-relacionamento das ideias, da economia de materiais, da instrumentação e estilo. Como resultado desse estudo, cerca de dez anos depois, me aventurei na análise do Quarteto Voces Intimae, do Concerto para violino, da famosíssima abertura Finlândia e de seu poema sinfônico Tapiola. Com esse trabalho, obtive o “notório saber” que me qualificou para lecionar na Pós-Graduação no Departamento de Música da USP. Mal terminei essa tarefa, senti-me impulsionado a analisar as sete Sinfonias, o que, ao final de alguns anos, acabou se transformando em minha tese de Doutorado também na USP. Foi um “curso” bastante longo e difícil, mas que me valeu muito além dos títulos, como uma excelente escola de composição.
C.M.: Tem opinião ou pistas sobre o porquê de essa música não atrair aparentemente os públicos nem mesmo os músicos em países como o Brasil?
M. F.: A razão é muito simples: a música de Sibelius tem características próprias, logo, demanda que o regente se dedique a conhecer a sua linguagem, para que possa conceber a música como foi idealizada, explorando os materiais para as funções expressivas a que foram destinados e, evidente, ele precisará transmitir esse conhecimento, essa apreensão e percepção aos instrumentistas. Esse processo não é óbvio nem automático. Observe que Sibelius, via de regra, compõe baseado em motivos, e para isso é fundamental grande criatividade e inventiva no tecer a música. Esses aspectos, quando não considerados amplamente na interpretação, não cumprem a sua função na música e, por consequência, não há a necessária comunicação com o público. É como se, em um quebra-cabeça, cada peça pudesse ser encaixada com as demais, mas no final não fosse possível formar uma figura única, onde cada parte perderia a sua identidade para o todo. Curiosamente, quando Arturo Toscanini à frente da Orquestra Sinfônica da NBC, em Nova York, estreou a Quarta Sinfonia, ao final do último movimento o público aplaudiu desinteressadamente, Toscanini não agradeceu, virou-se para orquestra e disse alto e bom som: “Da Capo!” … e fez a orquestra tocar outra vez a Sinfonia inteira com seus 33 minutos de duração. Isso é o que eu chamo de coragem! É claro que as pessoas entenderam o recado do maestro e então os aplausos soaram frenéticos. Nesse caso específico, poderíamos dizer que determinados públicos não têm hábito de concentrar a sua escuta nesse tipo de arquitetura de materiais.
Além desses aspectos, não são raros os momentos em que Sibelius realiza elaborações camerísticas nas suas obras para orquestra, contrapondo-as a outros momentos de grande expressão sinfônica; eu diria até panorâmicas. É fácil imaginar que, em tais momentos camerísticos, um regente não familiarizado com o estilo desse compositor possa desconectar essas passagens do todo, o que naturalmente provoca desinteresse.
C.M.: Como resumiria as duas ou três características mais marcantes da linguagem e da fraseologia das Sinfonias de Sibelius?
M. F.: Além dos aspectos já comentados acima, outros aspectos referentes ao estilo de Sibelius são bastante característicos e variados. Na forma, é sucinto, porém claro. Isso pode ser observado com facilidade não só nos diversos movimentos das Sinfonias onde ele emprega a essência da forma-sonata, bem como nos poemas sinfônicos. A propósito, quanto à obra Tapiola, permiti-me teorizar que ela seria a tão esperada Oitava Sinfonia. Muitos cobravam do compositor uma nova sinfonia depois da Sétima (principalmente regentes). Ele dizia que se escrevesse uma obra melhor que a Sétima, essa seria a Oitava. A minha ousadia por tal especulação se prende ao fato de que embora a Sétima seja conhecida como “Sinfonia em um só movimento”, analisando-a cuidadosamente identifiquei que, contrariamente, ela tem na verdade quatro movimentos que são interligados por uma frase do trombone.
Convém chamar a atenção do ouvinte para a temática em Sibelius. Já observamos acima que ele se vale quase sempre de motivos curtos, de um modo geral e particularmente nas Sinfonias. Acresça-se a isso o uso da bordadura, isto é, empregando uma só nota principal e em torno dela algumas notas vizinhas. Esclarecendo melhor para o ouvinte leigo: é exatamente o que acontece na introdução de nosso Hino Nacional, com as suas rápidas primeiras cinco notas da introdução. Em Sibelius, a bordadura se apresenta mais lenta. Isso em si é uma maneira particular de enriquecimento melódico.
Outro aspecto que considero relevante está na construção das partes de uma mesma música: ele anuncia uma idéia nova no final de uma parte, de modo secundário ou sutil, mas irá apresentá-la de fato na parte a seguir, tornando-a importante. Pode-se fazer analogia com uma peça de teatro, durante uma cena onde uma nova personagem entrasse furtivamente no palco sem quase ser notada, e na cena seguinte aquela mesma personagem passasse a ser a protagonista. Enfim, seria cansativo para o leitor detalhar tantas particularidades técnicas da composição em Sibelius. Possivelmente o ouvinte atento, após algumas audições com concentração e valorizando a memória, logo perceberia algumas características principais constantes no estilo sibeliano.
C.M.: Quais são em sua opinião as realizações máximas de Sibelius no ciclo das Sinfonias – os momentos, as soluções composicionais, os movimentos ou sinfonias mais impressionantes para o senhor, como músico e compositor?
M. F.: São vários os escritos de que dispomos sobre o compositor Sibelius e o compositor Beethoven. Diz-se daquele como o verdadeiro continuador do mestre de Bonn. Quem conhece profundamente as primeiras obras do então menino Ludwig com apenas 12 anos e o compositor dos cinco últimos Quartetos perceberá naquele rapazinho as primeiras raízes da frondosa árvore em que se tornará mais tarde. Sempre progredindo, sempre se superando, edificando andar por andar até atingir alturas nunca pensadas antes. Também Jean Sibelius, nos seus vários poemas sinfônicos e nas sete Sinfonias parece trilhar uma trajetória composicional semelhante àquele mestre que o antecedeu. Um progresso contínuo, sólido e principalmente exemplar para os compositores pela honestidade, sabedoria e fundamentalmente pela profundidade de conteúdo, isto é, sobre O QUÊ ambos expressam em suas obras, para além do COMO expressam. Vale complementar enaltecendo a independência que ambos tão bem cultivaram em suas trajetórias. Por isso tudo não consigo destacar este ou aquele aspecto. Seria como se eu desprezasse todo um admirável corpo e me ativesse apenas a alguma de suas partes.
No meu entender, uma coisa é certa: Sibelius tem muitos detratores, principalmente entre alguns músicos conceituados. Prefiro diante disso fazer coro ao Mestre que, quando perguntado sobre seus críticos, disse apenas: “Enquanto alguns oferecem coquetéis sofisticados, eu ofereço apenas água pura e fresca.”
C.M.: Alguma presença, consciente ou inconsciente, da música de Sibelius em suas próprias composições?
M. F.: Não consigo perceber em minhas composições algum elemento que possa ter origem em Sibelius devido à admiração e identificação que tenho por ele. Do mesmo modo como admiro e me identifico com Beethoven, Wagner, Stravinsky, Chostakovich, Britten… a lista seria imensa. Certa vez, quando da estreia de minha Sinfonia nº 2, Mhatuhabh, em Zurique, pela Sinfônica Tonhalle, houve hora e meia antes uma conversa com o público. Em certo momento alguém me fez pergunta semelhante. Respondi: “Quando chove muito e alguém se prepara para sair, mune-se de capa, guarda-chuva, calçados especiais e enfrenta o aguaceiro. Com certeza vai sofrer alguns respingos por mais prevenido que esteja.”
No entanto, se alguma influência Sibelius exerceu sobre, mim foi acima de tudo pela seriedade e atenção ao seu conselho, do qual tenho inclusive uma gravação: Nunca escreva uma nota sem que ela tenha função clara e objetiva.” Além disso, pelo exemplo dele, a opção em escrever a música que realmente sinto, sem preocupar-me com escolas, tendências estéticas ou críticas seja de quem for. Isso eu já suspeitava ao estudar Beethoven.
A seguir, o emocionante e empolgante “Allegro molto” que encerra a Sinfonia nº 5, com os famosos acordes entremeados de silêncio no fim, em gravação da Sinfônica de Londres sob a regência de Anthony Collins.

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