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Legado de Néstor Kirchner ainda define governo argentino, um ano após sua morte

sábado, 29 de outubro de 2011


Legado de Néstor Kirchner ainda define governo argentino, um ano após sua morte



Kirchner
Néstor Kirchner morreu subitamente há um ano; ele teria sido um político "onipresente" e o responsável por "devolver a auto-estima aos argentinos"
Um ano após sua morte, o legado do ex-presidente Néstor Kirchner ainda influencia a política, a economia e a forma como o governo na Argentina lida com questões sociais.
Sua herança foi “decisiva” para a reeleição, domingo, da sua viúva e sucessora, Cristina Kirchner, segundo políticos e analistas argentinos.
O ex-presidente, que governou o país entre 2003 e 2007, morreu subitamente no dia 27 de outubro de 2010. Ele foi definido por aliados e adversários como um político “onipresente” que costumava tomar sozinho ou com a esposa as decisões em todas as áreas do governo.
Para o líder do governo na Câmara, deputado Agustín Rossi (Frente para a Vitória), “Kirchner devolveu a autoestima dos argentinos”.
Até a oposição reconhece a importância e o legado do ex-presidente. “Kirchner recuperou o papel de presidente no país”, disse o opositor Mauricio Macri (PRO), prefeito de Buenos Aires.
‘Legado ambíguo’
Néstor Kirchner assumiu a Presidência em 2003, logo depois da histórica crise de 2001 e 2002, quando cinco presidentes passaram pela Casa Rosada em poucas semanas.
-Kirchner fez uma inteligente construção de governo e esperava que o kirchnerismo ficasse 20 anos na Presidência, numa alternância entre ele e a mulher na cadeira presidencial. Mas ele morreu e a morte foi vista (por seus eleitores) como um gesto magnânimo-, disse o sociólogo Ricardo Sidicaro, professor da Universidade de Buenos Aires.
Entrevistados pela BBC Brasil, o cientista político Vicente Palermo, pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Cientificas (Conicet), e o economista Orlando Ferreres, da consultoria Ferreres e Associados, disseram que o ex-presidente “deixou marcas profundas”, mas um “legado ambíguo” na política e na economia argentina.
-Kirchner foi decisivo para a recuperação do Estado, mas esse projeto político foi autoritário e concentrador tanto de poder político quanto econômico-, disse Palermo.
Para ele, o ex-presidente “relançou” a política argentina e criou uma nova etapa para o peronismo (movimento político fundado por Juan Domingo Perón).
Ferreres observou que o ex-presidente governou implementando medidas populares e criando um sistema econômico baseado no aumento do consumo que foi mantido por sua viúva e sucessora, que foi eleita em 2007 e reeleita esta semana.
-A economia registrou forte expansão, mas existiam e existem distorções como a questão da inflação-, afirmou.
A oposição diz que o índice oficial de inflação perdeu confiabilidade na era Kirchner, porque o dado teria sido “maquiado” por pressão do governo. Um ex-diretor do Indec (instituto oficial de pesquisas) disse à BBC Brasil que o ex-presidente o telefonava para saber antecipadamente o índice de inflação e “reclamava quando era mais alta do que ele esperava”.
‘Néstor não morreu’
A presidenta costuma lembrar que ele (Néstor Kirchner) decidiu pagar a divida do país com o FMI e abrir caminho para a reabertura das causas de crimes cometidos na ditadura (1976-1983).
Na sua gestão, o Congresso Nacional aprovou o fim das leis de anistia que estavam em vigor desde 1986 e 1987 no país, o que permitiu que militares acusados de abusos de direitos humanos e tortura fossem levados à Justiça.
A população não esqueceu disso. “Néstor não morreu. Néstor vive”, gritaram, nesta quarta-feira, militantes políticos após a condenação de 16 militares por crimes contra a humanidade.
Outra qualidade apontada por analistas – mas que sua sucessora, Cristina, ainda não teria aproveitado – é o seu empenho em construir relações pessoais e conversar com prefeitos e governadores, sindicalistas e líderes das entidades de direitos humanos.
-Existe um ponto no qual os que estiveram perto de Kirchner concordam: a sua capacidade de trabalho. Mas agora muitas das suas funções ficaram vazias, como a relação com os prefeitos e governadores-, escreveu a jornalista do La Nación, Lucrecia Bulrich.
Já com a oposição havia pouco diálogo, pelo menos essa era uma das principais críticas feitas a Kirchner, acusado de concentrar excessivamente o poder e de promover “capitalismo de compadres” – permitindo, por exemplo, que empresas fossem estatizadas sem abertura de licitação.
Setores da imprensa diziam que ele mantinha controle sobre o caixa do governo e que era o “verdadeiro” ministro da Economia.
O crescimento do seu patrimônio pessoal durante sua gestão levanta suspeitas até hoje. Na sua edição desta semana, a revista Notícias publicou reportagem de capa intitulada: “Os negócios que Kirchner deixou e que Cristina quer decifrar”, sobre sua contabilidade pessoal.
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