Líbia enfrenta momento de grande expectativa e disputa pelo poder

Mulheres e crianças líbias comemoram o fim de Gaddafi; para muitos, o momento é inquietante: de um lado, o medo de que novos grupos pró-gadaffistas surjam, e de outro, insegurança quanto ao futuro do país nas mãos das potências mundiais
A disputa pelo poder entre os setores bem armados da nova liderança líbiapode se intensificar após a morte de Gaddafi, um momento inquietante e, para muitos, alegre em um país sedento de estabilidade e impaciente em trocar projéteis por cédulas eleitorais.
O governo interino estará determinado a garantir que as forças pró-Gaddafi ainda remanescentes sejam impedidas de lançar qualquer insurgência guerrilheira na zona rural, algo que poderia desestabilizar aLíbia, membro da Opep, e seu setor petrolífero.
Um dos filhos mais politicamente influentes de Gaddafi, Saif al-Islam, e seu chefe de segurança, Abdullah Sanussi, aparentemente continuam foragidos, e é possível que ainda estejam em condições de recrutar seguidores armados.
Mas o teste mais importante do Conselho Nacional de Transição será administrar as enormes expectativas dos 6 milhões de habitantes da Líbia, agora libertados definitivamente do receio de que Gaddafi poderia algum dia voltar a impor seu domínio.
-Há uma expectativa enorme no ar. Até agora eles (o CNT) tinham a desculpa de que estavam em guerra. Agora, não têm mais essa desculpa. Tudo precisa acontecer-, disse à agência inglesa de notícias Reuters John Hamilton, especialista na Líbia da organização Cross Border Information.
-Isso não será fácil. Eles precisam tomar medidas concretas para a população. Por outro lado, isto (a morte de Gaddafi) pode trazer de volta a lua-de-mel que o CNT desfrutou quando Trípoli caiu, se conseguirem montar um governo decente em pouco tempo-, afirmou.
A notícia da captura e morte de Gaddafi chegou minutos depois de relatos de que Sirte, sua cidade natal, havia caído em meio a ataques de aviões de guerra da Otan, pondo fim à última resistência importante de forças leais a Gaddafi.
A captura de Sirte e a morte de Gaddafi significam que agora o CNT precisa iniciar a tarefa de forjar um novo sistema democrático, o que começaria a ser feito com a queda de Sirte, cidade que funcionava como vitrine do governo Gaddafi.
Alguns temem que a instabilidade se prolongue, o que pode atrapalhar esse processo.
-Gaddafi agora virou um mártir e, com isso, existe a possibilidade de virar foco de violência tribal – talvez não no futuro imediato, mas em médio e longo prazo-, disse George Joffe, especialista sobre o norte da África da Universidade Cambridge. ”O fato de que é possível atribuir sua morte à Otan é preocupante, em termos de apoio regional, e pode enfraquecer a legitimidade do Conselho Nacional de Transição”.
Mas as autoridades interinas do CNT também têm pela frente uma tarefa que talvez seja mais crítica: controlar um grupo de milícias armadas anti-Gaddafi que vêm competindo – até agora, pacificamente – por participações nas verbas e na representação política na Líbia pós-Gaddafi.
O especialista em Líbia Alex Warren, da Frontier MEA, firma de pesquisas e assessoria sobre o Oriente Médio e norte da África, disse que a morte de Gaddafi “é sem dúvida um evento significativo, de importância muito maior que a apenas simbólica”.
Mas ele acrescentou, falando sobre as milícias do CNT: “Estes grupos precisam ou ser desfeitos cuidadosamente ou integrados às forças armadas. Restam perguntas sobre a quem essas milícias se reportam, como administram suas relações umas com as outras e quais são suas reivindicações”.
Pelas regras traçadas pelas forças revolucionárias que derrubaram Gaddafi em setembro, a queda de Sirte vai levar a uma declaração oficial de que a Líbia está libertada, o que desencadeará um processo em direção a eleições democráticas.
Ao declarar a libertação do país, o CNT vai transferir sua sede de Benghazi a Trípoli e formar um governo de transição no prazo de 30 dias. Dentro de 240 dias deve ser eleita uma conferência nacional de 200 membros, e esta, um mês depois, nomeará um primeiro-ministro que então formará seu governo. A conferência nacional também estabelecerá o prazo para a redação de uma nova Constituição.


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