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O nada ortodoxo

terça-feira, 31 de maio de 2011

OPINIÃO

O nada ortodoxo

Uma presidente técnica, um ministro empresário e uma base governista fisiológica. Naturalmente o único político nato ressurgiria: Lula. Por Leandro Mazzini

Antonio Palocci Filho, então ministro da Fazenda do governo de Lula, certa vez indicou que a política econômica era simplesmente ortodoxa, ou seja, fazia o dever de casa para manter a estabilidade do país. No dicionário, a palavra “ortodoxo” é classificada como “aquilo que segue à risca o que diz uma regra; Orto é correto ou direito; Doxo é ensino”. Nada mais natural a falácia proveniente por força de um cargo, a mesma demagogia de sempre – e não só a dele, como dos antecessores e sucessores – para acalmar o mercado e não derrubar bolsas ou governos. O cargo é relevante o suficiente para mudar o humor do mundo. Recorda-se, é fato, que bastava um espirro de Alan Greenspan, quando chefe do FED nos Estados Unidos, para alterar as bolsas de Tóquio a Nova York.
Lamentavelmente a ortodoxia, em se tratando de política no Brasil, não passa de uma palavra bonita, embora emblemática. Principalmente sobre a relação de política com poder. Palocci tropeçou na língua uma primeira vez – vide o caso do caseiro Francenildo, para lá de notório – e, não ciente do perigo da exposição, ou certo da impunidade tão latente neste país, repetiu a dose. Palocci não tem sido nada ortodoxo. Como um deputado federal aumenta em 20 vezes o patrimônio em quatro anos, com renda de parlamentar? Explicou: atuando como consultor no mercado. E pode? Sim, deixa a brecha constitucional. A irracionalidade, neste contexto, está no fato de ser “conselheiro” de empresas estreitamente ligadas ao poder governamental que ele representa.
Estava indo tudo muito bem. Palocci limpava a biografia, o “todo poderoso” voltava, segundo reportagens de destaques em duas revistas e um jornal recentemente. Bastou um sopro de bom senso sobre as contas do agora ministro para esse perfil ser rabiscado. O ministro balança, desnorteado, entre a explicação à sociedade e à chefe, e – tal como o espirro de Greenspan – abala toda a estrutura de um governo. A situação chegou ao ponto de uma tragicomédia, conforme relatou-me alto funcionário do Palácio do Planalto. Há duas semanas, envolto 24 horas na sua defesa, o ministro pediu aos subordinados uma ligação para o senador Itamar Franco (PPs-MG), ex-presidente da República e o mais feroz opositor do governo no Senado. Papo vai, papo vem, entre pedidos de compreensão, Palocci notou que o interlocutor estava visivelmente alterado na linha, com sinais de embriaguês. Antes que perguntasse ao nobre a causa do infortúnio verbal, o ministro descobriu que não era Itamar. Foi o primeiro dia em que a Casa Civil quase desabou, tamanha a irritação do ministro.
O episódio ilustra a que nível chegou a desorganização no celeiro do poder nacional. Responsável por intermediar a cobrança da presidente da República com os 37 ministros, e ser o canal de cobrança do Executivo para com os subordinados, Palocci não dá conta dele mesmo. Semana passada, ao receber a notícia da secretária de que havia 200 ligações para retorno, foi à sala ao lado e pediu ao colega Luiz Sérgio, ministro das Relações Institucionais, que retornasse uma por uma. Depois disso, o nobre – figura caricata na mídia por seu topete e bigode – ganhou um apelido entre senadores próximos do Planalto: O Garçom. Explicou-me um deles: não resolve nada, só leva e traz.
Não bastasse toda a crise, constata-se então que o Congresso, e não só a oposição, já considera o respeitado Palácio do Planalto um circo. O pior não acontece porque Dilma Rousseff doma o show. Impõe, por ora, o respeito necessário da figura soberana. Com perfil de durona e competente que a consagrou, surge aos olhos de aliados e opositores como a Margareth Thatcher tupiniquim. Mas, diante do cenário com nuvens sombrias que encobrem o Palácio nestes tempos já de estiagem brasiliense, resta saber: até quando resistirá às trovoadas?
Dilma tem se mostrado séria, combatente, fria contra a crítica até dos aliados. Mas os próprios PT e PMDB a prejudicam ao apelar à presença do ex-presidente. Registrou-se, então, o que se transformou seu governo em apenas cinco meses: uma presidente técnica, um ministro empresário e uma base governista fisiológica. Naturalmente o único político nato ressurgiria: Lula.
Ele dizia que não iria aparecer e ofuscar Dilma. Imagine se quisesse.
Nota do autor – na cronologia do poder, nota-se uma sucessão de encontros naturais na transição do governo tucano para o petista, em 2002, mas há um episódio que deve ser destacado. No dia 31 de outubro de 2002, Lula já eleito fez visita informal a FHC no Palácio. Oito dias depois, aconteceu um jantar entre FHC e dona Ruth, Lula e dona Marisa, José Dirceu, Antonio Palocci, Pedro Malan e Pedro Parente. Aqui mora o diabo. Os últimos quatro sumiram durante a sobremesa. Quatro dias depois, num encontro secreto em que poucas pessoas no poder sabem, Malan e Palocci acertaram em Brasília a continuidade das políticas econômica e monetária, para tranquilizar os mercados internacionais – câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. Lula e FHC ficaram à parte desse acordo.
Depreende-se do episódio uma verdade: nem sempre o chefe sabe o que o subordinado fala no cafezinho da empresa. Fica a dúvida se Dilma deve ser punida por tabela pelas benfeitorias patrimoniais de Palocci.
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